O Eleito
Confesso “mea culpa, mea maxima culpa” pois fui para Paris há quinze dias atrás e não avisei para ninguém. Coisas de Aryan que mandou um de seus aviões para me levar para aquela que ainda continua sendo a cidade luz, depois conto...
Voltei ontem ao Rio, numa aflição de sacudir meu esqueleto pelas praias cariocas e tirar o mofo adquirido no inverno europeu, fui dar uma volta no calçadão de Copacabana.
Ao passar num dos quiosques da orla, encontrei dois gatos saradinhos, Valdo e Crisaldo, eles são do interior do estado do Rio e estavam meio que perdidos na cidade grande. Papo vem, papo vai, acabamos por ir jantar no Cipriani no Copacabana Palace e fiquei louca para levar os dois para o meu cafofo cor pêssego. Fiz o convite mas logo percebi que eram muito tímidos e não queriam ir para a cama comigo ao mesmo tempo, coisas de macho bobo que acha que fica menos macho por ter um outro homem na cama dividindo uma mulher, tolinhos não sabem de nada.

Cipriani...
Não sei se naquela hora me senti como a D. Flor de Jorge Amado a quem teriam imposto escolher um dos dois maridos ou se estaria me sentindo uma reencarnação do Hans Christian Andersen recontando a história da D. Pata que descobre um patinho feio no meio de sua linda prole.
Vou tentar explicar embora com toda a certeza não tenha a leveza nem a poesia daqueles dois gênios da literatura, mas pelo menos tenho um pouco da magia da fantasia para retratar tão melancólico e solitário momento de decisão...
Crisaldo é o patinho feio, cabelo curtinho mal cuidado, testa larga com sinais de calvície precoce, usa uns óculos sem graça para corrigir a miopia, a seu favor uma boca carnuda e sensual, um brilho no olhar que revela um vulcão aprisionado na alma e que atento sorvia extasiado cada palavra que era trocada na mesa, como uma criança numa loja de brinquedos...

Crisaldo, o Patinho Feio...
Valdo é o cisne lindo, charmoso, olhos azuis da cor do mar, sorriso com dentes alvos, barba cerrada, olhar sedutor, braços e peito peludos, poliglota, viajado, jeito blasé e ares entediados, do tipo, sei que sou gostoso, já conheço todas as cantadas do mundo e estou prestes a levar mais uma...

Valdo, o cisne...
Depois de meia dúzia de taças de champagne, quando o clima estava mais descontraído e tive a oportunidade de estar a sós com cada um, disparei a clássica pergunta, numa tentativa desesperada de fazer a escolha certa: “Afinal para você, qual é o sentido da vida?”. A resposta veio de cada um deles como uma bofetada rápida!!!
Esta turma jovem pode ser tola, mas sabe o que é fundamental (e vocês... sabem a resposta para o sentido da vida?).

Sãozinha, morena no Cipriani...
Esta pergunta não serviu para decidir quem levar para o quartinho cor de pêssego.
Afinal quem foi o escolhido? Aceito apostas, vamos ver se todos me conhecem...
Fui ... (curtir o eleito e beber mais champagne...)
Beijos
Maria da Conceição Tavares – A Rainha do Calçadão


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