O Palácio de Cristal
Devia ter sido aeromoça... Deste modo estaria preparada para a maratona de viagens que Aryan me convenceu a fazer nos últimos meses, Lisboa, New York, Kabul, Astana, Paris, Londres... ufa... Mas tive que aproveitar o calor no norte, depois chega o inverno e os negócios sempre dão uma parada.
Nestes dias, eis-me de volta ao Rio e ao calor das praias tropicais, continuei com minha rotina habitual das longas caminhadas à beira mar ou no calçadão de Copacabana, quando todas as noites avisto o apartamento de uma prima de Clodovil, todo iluminado, a bicha quando anoitece, abre as cortinas de seus salões de mais de 100 metros quadrados, acende todos os lustres, abajours e apliques da casa, e faz brilhar a prataria, os móveis, os Rembrant, os Romero Brito e todos os outros adereços que aquela bicha velha de gosto refinado, porém duvidoso, ostenta em seu cafofo.
Foi nesse momento que me recordei de uma história amazônica que um dia ouvi quando descia o rio Negro, então reza a lenda...
“ Um dia, na floresta amazônica, o feiticeiro “Oxalánaomekomam” muito desgostoso da vida e com muita raiva, pois seus despachos para eliminar os inimigos não estavam funcionando, lança um raio poderoso sobre um canto da floresta onde vivia uma linda salamandra. O raio atinge a pobrezinha com toda a energia das pragas do inferno e a colorida salamandra se transforma numa deslumbrante princesa.
Sem saber o que fazer com aquela mulher estonteante, o feiticeiro e misto de pai de santo do avesso, colocou a princesa “Olhanoisaki” num palácio de cristal às margens do rio Negro.
Olhanoisaki nos finais de tarde, acendia todas as luzes do palácio, abria os reposteiros (palácio de princesa não tem cortinas nas janelas e sim reposteiros...) e desta forma atraía todas as belas borboletas e mariposas que ficavam ofuscadas com tamanho brilho e acabavam no estômago voraz da princesa.
Um belo dia, tamanho brilho e fausto atraíram a cobiça de um gavião no morro do Chapéu Bananeira, vizinho ao palácio de Olhanoisaki, usando todas as técnicas aprendidas com os traficantes do morro, o gavião (que na realidade era um ex-chefe da boca de fumo, amaldiçoado por um feiticeiro rival de Oxalánaomekomam, o qual era um viadaço, não era à toa que respondia pelo nome de Oxalámekomam...) se lança na contra luz do sol em direção ao Palácio de Cristal e janta a bela princesa.”

O Gavião que jantou a princesa...
Moral da história, “mantenha as coisas simples” e seja discreta, me contaram que o apartamento da prima de Clô já foi assaltado, mas a bicha velha tem um ego maior que a própria fortuna e ainda não aprendeu...
Fui... (espantar os gaviões...)
Beijos
Maria da Conceição Tavares – Marquesa de Trancoso, Viscondessa Hereditária da Várzea da Ourada e muito simples


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